Texto - Entrevista Revista Diário - 30/01/2011 PDF Print E-mail
Tuesday, 01 February 2011 18:08

 

Por Flávia Ribeiro

 

Há alguns radicada em São Paulo, Lorenna Mesquita decide deixar o jornalismo de lado e investir todas as energias na carreira de atriz. Os fãs agradecem.

 

Ela tinha uma vida estável em Belém, vivia confortavelmente, tinha emprego fixo, amigos, uma relação estável e segurança. Mas largou tudo, foi morar em outro Estado, em um kitnet, e passou por todos os 'perrengues' comuns a quem decide perseguir um sonho. Essa é a história de Lorenna Mesquita.

 

Ela conta que desde criança sonhava em ser atriz, mas a falta de um curso de formação, à época, fez com que ela se formasse em jornalismo. Mesmo assim, o sonho não ficou adormecido e Lorenna estudou piano, canto, dança, enfim se preparou.

 

Quando chegou em São Paulo, o jornalismo ainda foi encarado como principal meio de ganhar a vida e sustentar a paixão pela arte. Ela, então, se destacou como a assessora de imprensa da rede McDonald's no Brasil, e paralelamente participava de filmes e peças. E quando tudo parecia novamente estável, ela decidiu, mais uma vez largar o jornalismo para viver só de ser atriz. Isso foi no final do ano passado e, depois de uma temporada em belém recarregando as energia junto a amigos e familiares, ela já se prepara para uma peça que estreia em fevereiro e para um musical cujo projeto ainda guarda a sete chaves.

 

Como tem sido a vida em São Paulo?

Cheia de desafios e de surpresas a cada dia. Apesar de valorizar as artes, minha família não é de artistas. Tenho que lutar com os leões pelo meu espaço. Se você permitir, a cidade te engole. No início não foi nada fácil. Saí da casa confortável dos meus pais, com a tradicional comida e roupa lavada e vim morar sozinha numa kitnet de 23 metros quadrados. Mas o sacrifício nem parecia tão grande porque eu estava em busca do meu sonho: me firmar na carreira de atriz. Hoje moro bem melhor, tenho amigos paraenses e paulistas e me dedico ao ofício que mais amo.

 

Você tinha uma carreira encaminhada em Belém. Quando o desejo de ser atriz falou mais alto e fez você jogar tudo para o alto?

Quando prestei vestibular em Belém, não havia curso superior na área artística. Então escolhi o Jornalismo, onde encontrei mais afinidade. E me apaixonei por essa carreira. Acabei levando uma vida dupla: jornalista de manhã e atriz à noite. Como jornalista, trabalhei na Gazeta Mercantil, Telemar, Governo do Pará e repórter de TV. Mas em 2004, fui protagonista de dois grandes espetáculos, o musical “O Mágico de Oz”, no Theatro da Paz, e a novela “Amor de Perdição”, no Teatro Maria Sylvia Nunes. Isso significou muita preparação corporal e vocal, muito texto para decorar, muita responsabilidade. Adorei. E percebi que ser atriz era o que eu mais queria para minha vida. Vi em São Paulo essa oportunidade e seis meses depois estava pegando o avião.

 

O que foi mais difícil nesse processo?

Deixei minha família, meus amigos e meu trabalho na cidade onde eu já era reconhecida para ser “mais uma” em São Paulo. Mas o mais difícil foi deixar o amor da minha vida. Continuamos nosso compromisso à distância, mas a geografia não nos ajudou e há dois anos achamos melhor, racionalmente, terminar essa relação mesmo nos amando muito. Ficamos juntos por dez anos.

 

Por que atriz?

Quando eu era criança e faziam a clássica pergunta: “O que você vai ser quando crescer?” eu sempre dizia: atriz. Ainda pequena, assistia filmes e novelas e, além de me envolver com a história, sempre me perguntava como o ator conseguia chegar naquela emoção. No colégio, eu brincava de chorar, de ter filho (imitava as dores do parto) e minhas amigas se divertiam muito. Até quando eu chorava de verdade, ia para frente do espelho para ver como ficava a minha expressão, como caíam as lágrimas.

 

Por que São Paulo?

Vi que tinha mais oportunidade de fazer teatro, cinema e televisão (mesmo com gravações no Rio, as emissoras também fazem casting em São Paulo) e cursos excelentes. Estudei dois anos de atuação para cinema com a preparadora de elenco Fátima Toledo, responsável pela preparação do Wagner Moura no filme “Tropa de Elite” e de outros grandes atores do cinema nacional; e também cursei a escola do diretor Wolf Maya, que prepara para novelas e musicais. E continuo me atualizando em cursos bastante conceituados.

 

O fato de ser de Belém beneficiou ou prejudicou você em algum trabalho?

No início, fiquei muito preocupada com meu sotaque. Todo mundo perguntava se eu era carioca e, achando que eu poderia perder algum trabalho, fiz aulas com uma fonoaudióloga para neutralizar. Foi bom, porque se eu precisar falar como paulista, inclusive como uma interiorana, eu consigo. Mas por ser da Amazônia, as pessoas ficando curiosas a seu respeito, o que pode abrir algumas portas em termos de relacionamento. Agora, para trabalhar, tenho suado bastante e disputado de igual para igual com todo mundo.

 

 

Você conhece outros paraenses que também sonham com uma carreira artística em São Paulo?

Os paulistas que conheço dizem que Belém invadiu São Paulo (risos). Um paraense que já está com a carreira consolidada é o dramaturgo, diretor e ator Paulo Faria, que me acolheu quando cheguei na cidade. O ator Cláudio Marinho também está se destacando como diretor. O ator Guilherme Gonzalez, depois de nove anos em São Paulo, acaba de conseguir seu primeiro papel numa novela da Globo. O dramaturgo Denio Maués também tem conquistado seu espaço. E a atriz Vanessa Gabriel, atualmente em Londres, firmou seu nome como uma grande produtora cultural. Com todos eles tenho um forte laço de amizade e carinho. Torcemos muito um pelo outro.

 

Alguma vez você pensou em voltar?

Várias. Mas sempre que eu pensava nisso, acontecia alguma coisa que me fazia ficar. Certa vez, eu estava na praia com minha família e eles – preocupados em ver a filha sofrer – diziam que eu já tinha tentado o suficiente, que era hora de voltar. Eu estava quase sem dinheiro (minhas economias estavam acabando e eu fazia um bico ou outro como jornalista). Chorei muito e pedi para Deus que me enviasse uma luz, um sinal, para eu saber se voltar era a melhor decisão. Nesse dia eu tinha deixado meu celular carregando e quando cheguei da praia, tinha uma mensagem do SBT para eu gravar a novela Maria Esperança. Sem teste, simplesmente me chamaram.

 

Atualmente, consegues viver apenas dos trabalhos realizados como atriz?

Quando eu fiquei absolutamente sem dinheiro, depois de dois anos morando em São Paulo, decidi voltar a ter um trabalho fixo como jornalista e manter de novo minha vida dupla. Concorri à vaga de coordenadora nacional de comunicação e eventos de uma grande empresa multinacional e consegui. Fiquei lá nos últimos três anos, até dezembro de 2010. Como a cada ano minha carreira artística ganhava mais força, eu sabia que ia chegar a hora de optar de novo só por ela. E chegou.

 

De qual trabalho você mais se orgulha?

Essa resposta é bem difícil. Atuei em várias peças com grandes mestres e não consigo escolher. Mas tenho um carinho especial pelo Mágico de Oz, que foi sucesso de público no nosso maravilhoso Theatro da Paz. Adoro crianças e após cada apresentação gostava de receber o carinho delas. Um trabalho no cinema que gostei muito foi o premiado curta-metragem “Ouija”, da produtora Gatacine, sobre a brincadeira do copo, lançado no ano passado e exibido em festivais no Brasil e no exterior, entre eles o de Trieste, na Itália.

 

Cinema, teatro ou TV?

Nossa, essa é mais difícil ainda. Meu sonho de criança sempre foi fazer novela. Mas depois de conhecer e atuar no cinema, me apaixonei, porque tem um trabalho mais apurado. E estar no palco, no teatro, é indescritível. Você sente as pessoas ali, seus olhares, suas reações. É incrível, emocionante. Não quero deixar nunca de fazer um dos três, todos envolvem essa magia e atingem diversos públicos.

 

 

Quais os planos para 2011?

Estreio no dia 5 de fevereiro o espetáculo “Cenas Contemporâneas”, que reúne quatro peças curtas, onde atuo em duas delas: na comédia “Bem-vindos”, de Denio Maués, sou uma motoqueira que invade uma casa para se esconder de extra-terrestres; e no drama “O fim da canção”, da paulistana Drika Nery, discuto sobre a morte de um amigo em meio a imagens de clássicos do cinema. Também tenho um musical, um videoclip, um curta-metragem e duas peças previstas ainda para o primeiro semestre, uma delas com circulação nas capitais, inclusive em Belém. Para isso, intensifiquei minha preparação de canto e dança.

 

Qual trabalho você sonha fazer?

Quero fazer um filme em Hollywood. Difícil? Realmente. Mas se alguém conseguiu chegar onde eu quero, quem foi que disse que é impossível eu chegar lá? Como diz minha avó Sultana: “Penses alto e teus feitos crescerão, penses baixo e vais direto ao chão”.

 

Valeu a pena?

Olha, se fosse para repetir tudo de novo, eu acho que não teria mais estômago. Mas passar pelo que eu passei até aqui me faz pensar em uma coisa: quando você tem um sonho, só você sabe o quanto ele significa. Mas para concretizá-lo não basta acreditar, é preciso que você tenha força para enfrentar um processo diário de doação e de renúncia. Só quem caminha consegue atingir o alvo.

Last Updated on Tuesday, 01 February 2011 20:54
 
   
 
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